Alô criançada, o Bingo chegou

“Bingo, o Rei das Manhãs”, conta a história romantizada de Arlindo Barreto, o intérprete mais controverso de Bozo. Nele, “Augusto Mendes”, codinome de Arlindo na ficção, é um ator que troca o teste de um papel de novela pelo teste para interpretar o palhaço. O resto é história.

O filme é um bom entretenimento e vale o dinheiro do busão e do ingresso. Como filme, não é iconoclasta, a despeito do personagem que o inspirou, mas tem pelo menos uma cena que pode-se chamar de icônica: Bingo, vestido de palhaço, transando com Gretchen no banheiro de uma festa.

O maior mérito de Bingo é ser uma viagem no tempo para quem cresceu na São Paulo dos anos 80 ali retratada. Mais ainda para quem foi fã do palhaço mais simpático da TV, e do melhor programa infantil de sua época depois de Chaves.

Fotografia, figurinos e cenários são de alta excelência cinematográfica. O set do programa no filme é melhor que o original da TV. O apartamento de “Augusto”, onde posteriormente ele protagoniza os momentos do célebre vício em cocaína, também é um belo cenário e inclui uma linda vista do centro de São Paulo.

A edição tem ritmo e não cansa. A trilha-sonora é uma boa coletânea de hits dos anos 80, fundamental para trazer o espectador àquele universo. Destaque para as faixas “No Balanço das Horas” do Metrô, “Humanos” da Tokyo, “That’s Good” da Devo e “Bring On The Dancing Horses” do Echo & The Bunnymen.

Três atuações se sobressaem às demais: um é Augusto Madeira como “Vasconcelos”, o câmera do programa e “Sancho Pança” de Bingo. Outro é Domingos Montagner como “Aparício”, o palhaço que ensina Augusto a ser Bingo. Por fim, Vladimir Brichta, na função inglória de fazer dois personagens, vai melhor quando encarna o palhaço. Como “Bingo”, é excepcional.

Aqui é bom fazer um parênteses: o Brasil da crise é um lugar tão difícil para se fazer arte que qualquer grande iniciativa merece aplausos. Uma grande realização, então, merece-os de pé – e “Bingo” conseguiu ser um grande lançamento e estar em todos os cinemas em meio a produções milionárias de Hollywood. Fazer isso com cinema brasileiro, ainda mais em tempos de crise, é um mérito inquestionável. Meus aplausos de pé para Daniel Rezende, portanto. Mas agora, para seguir com honestidade intelectual, preciso falar dos problemas.

As atuações, de modo geral, não têm o nível de excelência de outras áreas. Não são ruins, mas têm vícios de novela, falas duras e pouco naturais.

Isso inclui o próprio Vladimir Brichita na pele de Augusto e Leandra Leal como diretora do programa – o que me surpreendeu pois ambos são muito talentosos.

Esses problemas apontam outros dois: o primeiro é de roteiro, mais precisamente de diálogos – você não vai ter personagens naturais se as falas não forem naturais. O outro é de direção. Em última instância, o grande diretor não apenas tira a grande atuação, como é ele que escolhe o elenco. Assim, atuação é responsabilidade direta do diretor.

Há algumas falhas técnicas, como o excesso de grafite na cidade, que não havia como há hoje. Nada muito comprometedor. Também acho que não custava ter colocado um americano para o papel do dono da franquia. Detalhes tão pequenos de nós dois, no entanto. Nada muito comprometedor.

Mas há um grande problema: a ausência da figura do Patrão. Para contar essa história direito, é inimaginável excluir Silvio Santos, um notório controlador que certamente esteve muito presente em diversos daqueles momentos.

É perfeitamente compreensível o medo de cutucar alguém tão poderoso, mas até por isso essa ausência me incomoda: o poderoso e rico, Silvio não aparece nem sob um codinome. Poderia ser “Sandro Silva”, “Célio Souza”, ou o que o valha. Ao mesmo tempo, a pobre Gretchen mostra a calcinha, é carcada pelo palhaço e é citada nominalmente – não “Gleise”, nem “Bete”, mas Gretchen. Poucas coisas me incomodam tanto quando a covardia – mas cada um sabe até onde vai sua coragem.

Somando e dividindo tudo isso, a constatação mais óbvia é que “Bingo” não vai mudar sua vida; não pode competir com os filmes de ponta em cartaz, nem entrar na lista dos melhores brasileiros. Mas vale o passeio. E eu até chamaria de um must see para quem, como eu, viveu aquela época e aqueles personagens.

Comentários