No mesmo ano do movimento #MeToo e da Marcha das Mulheres, vimos o ponto de vista feminino refletido em um número cada vez maior de programas de TV e filmes

Durante a maior parte da história do cinema e da televisão, o lugar das mulheres como criadores, diretores, espectadores, e bilheteria, foi definido por sua raridade. Os homens eram o padrão: o público padrão, os protagonistas padrão, os líderes criativos padrão.

Mas 2017 – em muitos aspectos, um ano infernal, de outras maneiras, para as mulheres – testemunhou uma mudança radical no ponto de vista desse padrão. Este foi o ano em que as histórias para, com e sobre as mulheres, começaram a atingir uma massa crítica na TV, com séries estabelecidas continuando a crescer e uma safra de novos shows que tomam as ondas tanto nos serviços de transmissão como na TV tradicional. Enquanto isso, no cinema, filmes como “Wonder Woman” derrubaram expectativas críticas e populares.

Não parece coincidência que o ano da Marcha das Mulheres, ano do movimento #MeToo, o ano em que os responsáveis ​​pelo governo não fizeram nada contra a erosão dos direitos das mulheres, seja também o ano em que o ponto de vista feminino se refletiu em um número crescente de shows e filmes. O patriarcado ainda pode manter as rédeas, mas as histórias que estamos nos dizendo como sociedade, estão começando a afastar-se desse ponto de vista míope, dominado pelos homens, refletindo e magnificando um momento em que a cultura está cada vez mais consciente de suas próprias tendências.

Claro, ainda temos um longo caminho a percorrer. Como Salma Hayek apontou em um recente artigo no jornal New York Times, em que detalhou seus encontros dolorosos com Harvey Weinstein e outros “ratos” de Hollywood, apenas 4 por cento dos diretores de filmes eram mulheres entre 2007 e 2016.

Em 1975, a crítica feminista Laura Mulvey cunhou o termo “olhar masculino” para descrever o ponto de vista do homem heterossexual que era o padrão na maioria das culturas pop da época (e – vamos enfrentá-lo – a maioria dos atuais também). Mulvey usou a frase para chamar a atenção para a ideia de que a maioria dos filmes convencionais – produzidos, escritos e dirigidos por homens, com heróis masculinos – adotam implicitamente esse ponto de vista, independentemente de quem realmente está fazendo a observação. As personagens femininas, por extensão, são inseridas na medida em que se relacionam com os homens, o que geralmente implica em erotização e marginalização de atrizes e personagens femininos.

Obviamente, o olhar feminino tem acontecido muito antes deste ano, nos filmes de diretoras influentes como Jane Campion (“O Piano”, “Top of the lake”), Sally Potter (“A Festa”), Ava Duvernay (“Selma”) e Kathryn Bigelow (“Detroit em rebelião”), para citar apenas algumas. Na telinha, criadoras como Issa Rae (“Insecure”), Jenji Kohan (“Weeds, Orange Is the New Black”), Lena Dunham (“Girls”), Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna (“Crazy Ex-Girlfriend”) e Jennie Snyder Urman (“Jane the Virgin”) deram voz para histórias de mulheres – sem mencionar o verdadeiro império de Shonda Rhimes no canal ABC (“Grey’s Anatomy”, “Scandal”, “How to Get Away with Murder”). Mas foi em 2017, com filmes e programas de TV protagonizados por personagens femininos fortes e marcantes, que o “olhar feminino” se tornou regra, e não a exceção.

O “olhar feminino” de 2017 é menos sobre o desejo feminino, embora seja uma parte disso. Trata-se de espaços que pertencem às mulheres, seja real ou interior. É sobre o ângulo da câmera e da narrativa. Trata-se de criar uma estética não tanto em oposição ao olhar masculino, mas sim desembaraçada dela. Aqui está uma pequena lista, de apenas uma parte da safra abundante de filmes centrados nas mulheres e programas de televisão que turbinaram a presença feminina na cultura pop.

– Mulher Maravilha

– Alias Grace

– GLOW

– The Handmaid’s Tale

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