Duas cartas abertas – uma escrita pelo cantor Bono Vox; outra por um grupo de mulheres francesas, capitaneadas pela atriz Catherine Deneuve -, publicadas essa semana, dão bons motivos para aprofundar a discussão acerca do tal “empoderamento feminino”.

Bono, líder da banda U2, destaca em seu texto o fato de 63 milhões de meninas em idade escolar estarem fora das salas de aula em todo o mundo. O número é o dobro do verificado entre meninos. Já a icônica atriz francesa, musa de uma geração, afirma que, feminista, não se reconhece em movimentos como o #MeToo, “que além de denunciar o abuso de poder, assume um ódio aos homens e à sexualidade”.

Que fique claro, de saída: o Atroz defende, por princípio, toda e qualquer “minoria”. Com a mesma força e convicção que condena toda forma de opressão. O ponto é: a “briga” feminina pelo direito de dizer “Não” a uma eventual “cantada” resolve ou esconde a questão do assédio, quase sempre uma demonstração de força/poder contra alguém “mais fraco”?

Lutar contra o assédio é justo. Ponto. Ocorre que esse é sintoma, não a “doença”. Na visão desse escriba, o mal a ser combatido é, como apontado por Bono, a radical desigualdade de oportunidades oferecidas para meninos e meninas: Enquanto somos, os homens, preparados para ocupar espaços nas universidades e no primeiro escalão de grandes corporações, em boa parte do mundo as meninas ainda são criadas para procriar e cuidar da família, sob a benção de uma religião que, já em seu primeiro “livro sagrado”, “criminaliza” Eva – a mulher criada por deus para servir a Adão – por ter comido a fruta da “árvore do conhecimento” e jogado a humanidade aos domínios de “forças sobrenaturais” das trevas.

Se já na Gênesis a mulher foi retratada como a causadora de todos os males que nos afrigem, por violar a interdição imposta por deus aos frutos da árvore do conhecimento, o Novo Testamento transformou uma nobre – Maria de Magdala -, devota seguidora e apóstola favorita de Cristo, em prostituta. Outros tempos? Que nada: o conhecimento/educação ainda é privilégio masculino – são homens os papas e padres que “guiam” o “rebanho” de fiéis; foram homens os estudiosos que desenvolveram a cabala judaica, até pouco tempo atrás proibida às mulheres -. Caminhamos muito, sem sair do lugar. Triste.

Educação é poder, conhecimento é chave da liberdade. Todo o resto é acessório. “Empoderamento feminino” só será realidade quando houver paridade de armas entre os sexos nas lutas cotidianas. Atacar sintoma não resolve a doença. Dizer “Não” a uma cantada e denunciar abusos não vai resolver uma situação perpetrada a milênios pelos poderes político, econômico e religioso. Talvez reflexo da polarização exacerbada que acabou por nos prender a um pensamento binário em que as sutilezas são despercebidas, como se nada houvesse entre os extremos “certo” e “errado”, imaginamos – homens e mulheres – estarmos mudando paradigmas – “respeitando” mais; “nos submetendo” menos – sem, de fato, cuidar do que realmente pode mudar o quadro: que as meninas tenham o mesmo acesso a educação ofertada aos meninos; que as adolescentes cresçam em um ambiente que estimule o desenvolvimento e formação intelectual, ao invés de serem doutrinadas para “aumentar o exército de deus”, geralmente em gravidez precoce; e que as mulheres, educadas para a vida, tenham condições de disputar em igualdade com os homens no mercado de trabalho.

Enquanto nada disso for objetivo, só nos resta celebrar as celulites expostas desavergonhadamente pela cantora Anita em seu clip “Vai Malandra”: afinal, nada mais “empoderador” que aceitar a realidade sem filtros e “photoshops”…

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