É compreensível que, para parte significativa dos brasileiros, a confirmação da pena imposta ao ex-presidente Lula pelo juiz de primeira instância de Curitiba referente ao “triplex do Guarujá” represente um marco, um “divisor de águas”. Para alguns, o nascimento de um “novo Brasil”, livre da corrupção.

Particularmente, já vi esse filme no começo dos anos 1990, quando Fernando Collor foi defenestrado do Palácio do Planalto. Nessa mesma época, o desvio de verbas por congressistas do chamado “baixo clero” limpou a Câmara dos Deputados dos chamados “anões do orçamento”. Catarse nacional: era o fim dos mal feitos perpetrados por políticos de moral questionável. Não foi.

Eleito graças ao “sucesso” do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso convocou sua “tropa de choque” no Congresso – sempre ele – para garantir a aprovação da emenda que permitiria a própria reeleição. No processo, deputados admitiram o recebimento de “mimos”, “presentes” em dinheiro, para votar a favor do projeto.

Reeleito, FHC seguiu a contribuir para incrementar a lista de grandes escândalos nacionais: caso “Marka/FonteCindam”; desvios na Sudene; o calote no Fundef; a farra das privatizações. Ao final do mandato, com índices de aprovação próximos ao de Temer, dirigiu-se ao apartamento que possui em Paris. No mesmo prédio do ex-ditador haitiano Papa Doc.

Antes que alguém grite “um erro não justifica o outro”, que fique claro: o que pretendemos apontar aqui não são as semelhanças entre Collor, FHC e Lula. São, de fato, as diferenças. Collor nasceu em uma família rica de políticos – seu pai, senador, assassinou um colega no Congresso Nacional, crime pelo qual nunca foi punido -. FH, filho e neto de militares e políticos, nunca passou perrengue na vida: após estudar em colégios particulares, formou-se em Sociologia na USP. E Lula?

Retirante nordestino, foi criado pela mãe. Abriu mão dos estudos para trabalhar e auxiliar a família. Conseguiu o diploma em tornearia mecânica no SENAI e tornou-se metalúrgico no ABC paulista, onde iniciou a carreira política como líder sindical. Eleito e reeleito presidente, deu atenção especial aos muitos problemas sociais brasileiros, retirando o Brasil do Mapa da Fome organizado pela ONU, entre outros programas que lhe garantiram a aprovação de mais de 80% dos brasileiros ao entregar o bastão à Dilma.

A condenação de Lula é a minha condenação. De negros, pobres, desvalidos, sonhadores e românticos em geral. De todas as “minorias”. É a condenação não de um homem e de uma – a maior, viva – liderança política. É a condenação de uma idéia, de um ideal de ascensão política e social do brasileiro comum, mediano, que enfrenta transportes coletivos lotados na busca de um salário que, geralmente, não dura até o fim do mês.

À lamentar que esses brasileiros medianos – de renda, educação e informação – comemorem a queda do único presidente de nossa história contemporânea a cuidar de seus interesses. Romântico inveterado, ainda nutro a esperança de o Brasil conseguir se reconciliar consigo e caminhar pra frente sem as amarras de um passado vergonhoso que insiste em mostrar a cara enrugada, marcada pela cultura do compadrio, da hipocrisia cordata, da manutenção de privilégios e da alienação.

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