Pouco importa o “astral” do brasileiro: época de festejos de Momo, é hora de sacudir a purpurina e rebolar até o chão ao som do hit da estação. Não me parece coincidência que, nesse 2018, o refrão mais ouvido/cantado seja “Que tiro foi esse”. Afinal, 2017 foi pródigo em “balas perdidas” disparadas pelos que não tem compromisso algum com a vida e por quem deveria cuidar de nossa(s) segurança(s).

De Brasília, o Congresso disparou contra a CLT. Poderia ter sido pior. Decantada como “modernização das relações de trabalho”, a tal reforma fez fechar 12,3 mil vagas formais de emprego. O que afeta, diretamente, a arrecadação previdenciária. Para os pistoleiros alocados nos palácios brasilienses, a solução é tão óbvia quanto ruim – para o povo -: dificulta-se a aposentadoria do trabalhador. “Que tiro foi esse?”

O Rio de Janeiro continua lindo, apesar de Cabral, Pezão e todos os que os precederam. Traficantes seguem a aterrorizar comunidades abandonadas pelo poder público. E quem não desce até o chão ao som do funk da estação, acaba de quatro, na própria casa, a fugir de bala perdida. Sob os braços abertos de um Cristo nada redentor, a “cidade maravilhosa” é, agora, palco de corpos desnudos e cérebros entorpecidos. E a preocupação passa a ser “quantas bocas você beijou hoje”, não “quantos foram assassinados na Rocinha”. Alalaô, “mamãe eu quero” e “o seu cabelo não nega, mulata”. Afinal, cada coisa a seu tempo.

Em São Paulo, o prefeito João Dória – versão anêmica de Trump – decidiu “organizar” a festa de rua. E eis que a Vila Madalena, tradicional ponto de festas populares dessa capital, acabou interditada. Natural: o bairro também concentra parte expressiva de eleitores do PSDB. Como manda quem pode e obedece quem tem juízo, blocos de carnaval foram incomodar outras vizinhanças, para sossego dos “homens de bem(ns)”. E tudo certo. Importante é vestir a fantasia e cair no samba/funk/axé. Quinta-feira que vem, de cara limpa, a gente encara o espelho e toma um susto com a nossa cara feia e enrugada. Até lá, a gente é lindx, pirata, cowboy, bailarina. E aproveitemos, porque a realidade é bem menos glamorosa que o faz de conta.

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