Quando soube que uma série com adolescentes dos anos 90 tinha aparecido, me animei. É exatamente sobre a minha geração – em 1996, ano em que se passa a primeira temporada, tínhamos meus amigos e eu praticamente a idade de Luke, Kate, McQuaid e Tyler, os personagens principais.

É claro que o retrato de uma escola americana é um bom tanto diferente de uma escola brasileira, ainda mais tratando-se de São Paulo e Boring, uma cidadela no interior do Oregon. Mesmo assim, há semelhanças nos assuntos, nas preocupações e, sobretudo, na trilha-sonora ouvida.

Como toda série de época, Everything Sucks é, de alguma forma, uma viagem no tempo. Invoca memórias afetivas fortes, sobretudo ligadas à música.

A série também capta razoavelmente bem o espírito do tempo em que se passa. “Everything sucks”. Tudo é uma merda. Era isso mesmo o que achávamos os adolescentes de classe média, muito preocupados com crises existenciais e absolutamente ignorantes de questões sociais.

Tal ignorância tem explicação: nós crescemos passeando num Mappin onde havia mais pessoas com a máquina de remarcar preço do que vendedores. Muitas vezes, havia um preço de manhã e outro à noite para a mesma garrafa de Coca-Cola. Depois, vimos sem entender muita coisa, Collor chacoalhar o país. Lembro-me até hoje das filas para entrar no supermercado por conta do confisco das poupanças.

Então, com a entrada de Itamar Franco, a criação do real e a estabilização posteriormente promovida por Fernando Henrique Cardoso, parecia que não havia mais problemas que não pudessem ser resolvidos. O Brasil sempre passou ao largo de guerras e catástrofes naturais. Nossa única tragédia, a social, parecia uma questão de tempo até ser resolvida – quando tínhamos qualquer noção de sua existência.

Isto posto, a série pinta um bom quadro da época e da sua classe média. Não foge muito dos estereótipos, no entanto. É sempre preocupante quando tudo é muito típico, e ali tem muitos adolescentes típicos, professores típicos, pais típicos.

Um outro ponto fraco a ser observado é a insistência em focar sempre no grupo de nerds. Não tem uma série ou filme recente que não seja assim, de Stranger Things a 13 Reasons Why. Entendo que o bullying tem que ser discutido. Sofri bullying e, com vergonha, admito que também fiz. É um dos grandes temas da humanidade. Mas sinto falta de ver as discussões sobre outros ângulos. Quem faz? Por quê faz? Os bullys são, de modo geral, desumanizados nos filmes e séries. São pintados como sádicos – o que não é verdade. Bullys também sofrem profundamente, e compreender esse sofrimento também é importante para eliminar o bullying.

Ainda assim, de modo geral, é uma série promissora. Vale a pena assistir, sobretudo se seu retrato, como o meu, estiver estampado lá.

E a trilha-sonora… ah, a trilha-sonora…

Compartilhar
Texto anteriorE Segue O Desfile De Fantasias No RJ
Emir Ruivo é músico e produtor há quase 20 anos. Formado em indústria fonográfica em Londres, foi crítico de arte por um período - e gostou da coisa.

Comentários